Tradução: The mystery of the semi-detached

O mistério da casa geminada

Edith Nesbit, 1893

Tradutora: Miriam Marques Machado Waltrick
Preparador com cotejo: Prof° José Luiz Corrêa da Silva

Ele esperava por ela. Há uma hora e meia ele a aguardava em uma estrada empoeirada nas cercanias de Londres , margeada por imponentes olmos de um lado e uns poucos terrenos baldios do outro. E, ao longe, na direção da cidade, as luzes amarelas e cintilantes do Crystal Palace.

Não se tratava de uma estrada típica do interior, já que contava com calçamento e postes de iluminação. Ainda assim, não era um local desagradável para um encontro. E, mais adiante, em direção ao cemitério, a paisagem era realmente bucólica, quase bela, especialmente ao pôr do sol. No entanto, o crepúsculo há muito já havia sido encoberto pela escuridão da noite, e ele ainda a esperava.

Ele a amava e iria desposá-la, apesar da total desaprovação de todas as pessoas sensatas que haviam sido consultadas sobre essa união.

O encontro com ares de clandestinidade dessa noite substituiria a visita semanal, relutantemente consentida, devido à chegada de um tio rico à casa da noiva. A mãe dela não era mulher que aceitaria colocar um parente abastado a par de um casamento tão inconveniente como esse da filha com ele, sobretudo porque o tio dava ares de que não tardaria a “partir desta para melhor”.

E lá estava ele a esperá-la. E o frio de uma noite de maio atipicamente rigoroso, penetrava-lhe os ossos.

Um policial passou por ele e mal se deu ao trabalho de responder ao seu “boa noite”. Ciclistas passaram por ele como entidades fantasmagóricas fonfonando buzinas que penetraram nos ouvidos dele com a intensidade de uma sirene de nevoeiro. O relógio estava prestes a marcar as dez horas da noite; e ela, nada.

Ele deu de ombros e decidiu que era hora de retornar para sua hospedaria. O caminho de volta o forçava a passar pela casa dela. Uma construção geminada, espaçosa e confortável, deveras cobiçada. Diminuiu o passo ao se aproximar do lugar. Poderia coincidir de ela estar saindo de casa naquele exato momento. Mas não foi o que aconteceu. Não havia qualquer indício de movimento no entorno da propriedade, nenhum sinal de vida, e até mesmo as luzes do interior estavam apagadas. E a família dela não era daquelas que se recolhia cedo.

Apreensivo, ele parou em frente ao portão.

Foi quando, então, percebeu que a porta de entrada da casa estava aberta. Na verdade, escancarada. E um poste de iluminação da rua clareava vagamente o interior do obscurecido vestíbulo.

Havia algo estranho no ar, que o perturbava e, de certa maneira, o assustava. A casa tinha um ar sombrio e abandonado. Era visível a impossibilidade de estar, naquele exato momento, acolhendo um tio rico sob seu teto. O velhote deve ter partido mais cedo. Nesse caso…

Ele decidiu percorrer o caminho revestido com ladrilhos vitrificados que dava acesso à casa, para tentar ouvir melhor. Contudo, nenhum sinal de vida. Entrou no vestíbulo e não havia sequer uma luz acesa. Onde estariam todos e por que a porta da entrada estava aberta? Não havia vivalma na sala de estar ou na sala de jantar, e até mesmo o diminuto estúdio (um cômodo de três por dois metros) estava deserto. Agora estava claro que todos tinham saído.

A sensação desagradável de que ele talvez não tenha sido o primeiro visitante casual a passar por aquela porta aberta o levou a olhar por toda a casa antes de ir embora e fechar a porta ao sair.

Foi quando ele decidiu subir as escadas. E em frente à porta do primeiro aposento que encontrou, acendeu um fósforo , tal como o fez ao inspecionar os demais cômodos. Ainda assim, tinha a nítida sensação de que não estava sozinho.

Ele estava preparado para se defrontar com algo, mas não para a cena que se desenrolava bem diante de seus olhos. Pois o que viu jazia na cama, e usava um vestido branco diáfano. Era sua amada, com a garganta cortada de orelha a orelha.

A partir daí, já não se lembrava de mais nada. Não sabia como conseguira descer as escadas e chegar à rua. O fato é que encontrou uma maneira de fugir. Quando o policial o avistou, estava completamente fora de si, sob a luz de um poste na esquina da rua. Não conseguia pronunciar uma só palavra quando o levaram, e acabou por passar a noite em uma cela da delegacia de polícia. Acontece que o agente da lei já vira muitos homens bêbados antes, mas jamais um que estivesse em tal estado de nervos.

Na manhã seguinte, sentia-se melhor, embora estivesse ainda muito pálido e abalado. Porém, a história que relatou ao juiz foi tão convincente, que dois policiais foram destacados para acompanhá-lo até a casa.

Não encontrou uma multidão de curiosos na frente da residência como imaginara, e as venezianas não estavam cerradas.

E ali estava ele, de pé, atordoado, diante da porta, quando esta se abriu e ela saiu.

Teve que se apoiar no batente para não perder o equilíbrio.

— Como o senhor pode ver, ela está bem — disse o policial que o havia encontrado sob o poste da rua. — Falei que estava embriagado e você sabe disso melhor do que eu…

Quando ficaram sozinhos, ele relatou a ela o que tinha visto. No entanto, não lhe contou tudo, não se atreveria a tanto. Apenas relatou como havia entrado na espaçosa casa geminada. A porta estava aberta e as luzes, apagadas. Contou a ela o que tinha visto no interior do espaçoso quarto que fica de frente para as escadas. Mas o simples esforço de tentar explicar a cena que havia testemunhado o abalou de tal forma, que caiu em prantos. Só se acalmou após tomar o conhaque que lhe foi oferecido.

— Mas, meu querido —, disse ela, — atrevo-me a afirmar que a casa estava mesmo às escuras, pois estávamos todos no Crystal Palace com o meu tio. Sem dúvida, a porta estava aberta, pois as criadas dão um jeito de sair sempre que se veem sozinhas em casa. Mas você não pode ter entrado naquele quarto, porque eu o tranquei antes de sair e a chave estava no meu bolso. Tive que me vestir às pressas e acabei deixando meus pertences espalhados pelo quarto.

— Sei disso, — reagiu ele. — Vi uma echarpe verde em uma cadeira, um par de luvas marrons compridas, vários grampos e fitas de cabelo, um livro de orações e um lenço de renda no toucador. Inclusive, percebi que o calendário sobre o parapeito da lareira indicava a data de 21 de outubro. Não poderia estar correto porque estamos em maio. E, ainda assim, o calendário estava aberto nessa data. Sua folhinha marcava 21 de outubro, não é verdade?

— Não, claro que não, — respondeu ela, com um sorriso um tanto preocupado. — Quanto as outras coisas que descreveu, eram exatamente como você diz. Você deve ter tido um sonho, ou uma visão, ou qualquer outra coisa do gênero.

Ele era um jovem como outro qualquer, um rapaz que sempre viveu na cidade e, como tal, não era dado a acreditar nessas coisas de visões. Mas jamais descansaria, passasse dia e noite, até conseguir afastar sua amada e a mãe dela daquela casa geminada, confortável e espaçosa, e instalá-las em um lugar tranquilo, nos arredores da cidade. A propósito, durante a mudança, eles se casaram e a mãe dela foi morar com eles.

Ele deve ter ficado com os nervos um tanto quanto abalados, pois passou a se comportar de maneira bastante estranha por um bom tempo. Vivia perguntando se alguém havia se interessado pela cobiçada casa geminada. E quando um antigo corretor de valores e sua família a comprou, ele chegou ao ponto de visitar aquele senhor e lhe implorar, por tudo o quanto lhe fosse mais sagrado, para que não morasse naquela fatídica casa.

— Mas, por qual motivo? — indagou o comprador, não sem razão.

No entanto, por não querer entrar em pormenores, ele passou a dar explicações tão vagas e confusas, que o comprador acabou pedindo para que se retirasse e agradeceu a Deus por não ser tolo a ponto de permitir que um lunático cruzasse o seu caminho, impedindo-o de comprar aquela casa geminada, supreendentemente barata e deveras cobiçada.

Agora vem a parte mais curiosa e totalmente inexplicável desta história. Quando ela desceu para o café, no dia 22 de outubro, encontrou o marido pálido como um cadáver, segurando o jornal matutino. Ele pegou na mão dela. Não conseguia falar e, por isso, apontava para o jornal.

No periódico ela leu que, na noite do dia 21, uma jovem, filha do corretor de valores, fora encontrada com a garganta cortada de orelha a orelha. A moça jazia na cama do quarto maior, o que dava para os fundos e ficava de frente para as escadas, daquela casa geminada deveras cobiçada.

Original English short story available here.
Conto original em inglês disponível aqui.

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