Tradução: When in Hell, Embrace the Devil: On Recreating “Grande Sertão: Veredas” in English

When in Hell, Embrace the Devil: On Recreating “Grande Sertão: Veredas” in English

By By Alison Entrekin, Words Without Borders

When I was approached about translating a certain Brazilian literary classic renowned for its made-up language and asked if I’d be willing to produce a short sample, my first thought was, “Is it even possible?” So I said yes, as one does when mired in deadlines and faced with an irresistible challenge.

I took three weeks out of the novel I was working on and translated three pages. Yes, that’s correct: pages, not chapters. In a profession in which some consider 2,000 words to be a reasonable daily output, what kind of lunatic willingly takes on a text in which they produce 860 words over the course of three weeks? (Sure, I was coming to it cold; perhaps after a while I’d get on a roll and manage to double that figure… but probably not. Tricky texts tend to stay tricky.) So, just to be clear, that’s one page a week, fifty-seven words a day, or seven words an hour if you work an eight-hour day, but when you’re this cooked, why quibble over numbers? When in hell, embrace the devil, as they say in Brazil.

In Brazil Grande Sertão: Veredas is a canonical work, and its author—novelist and diplomat João Guimarães Rosa (1908-1967)—is heralded as one of the country’s greatest writers, alongside Machado de Assis and Clarice Lispector. Outside Brazil, however, excepting a few European and Spanish-speaking countries, Grande Sertão: Veredas is barely known. It enjoys cult status among a handful of scholars and students of Brazilian literature, but few others have even heard of it. This is despite that fact that it was translated into English once before and published by the prestigious New York publishing house Alfred A. Knopf in 1963, but that edition has fallen into obscurity. (…)

So, why does nobody read him if his work is so good? To be fair, the 494-page tome is out of print in English, but that then begs the question: If it’s so good, why is it out of print? There are many theories, some of which hinge on the fact that the first translator, although highly esteemed for her work from Spanish, wasn’t fluent enough in Portuguese to contend with the unusual language, or that the translator who took over when she resigned, an excellent lexicographer whose name glares at me in gold from the spine of my favourite dictionary, is rumoured to have had a tin ear when it came to literature. (I’m on the fence here, because we translators cop the flack, often unjustly, for absolutely everything, and it’s hard to unpick the whys and wherefores of decisions made half a century earlier under very different working conditions.
(…)

Perhaps the novel’s current obscurity is due to the above, perhaps the timing was wrong, or perhaps the book didn’t live up to readers’ expectations of Latin American fiction at the time. Maybe a handful of unfavorable reviews quelled interest in the novel and it didn’t get the traction necessary to really take off. Or all of the above. (…)

Se está no inferno, abrace o capeta: sobre a recriação de “Grande sertão: veredas” em inglês

Por By Alison Entrekin, Words Without Borders

Quando fui solicitada a fazer a tradução de um clássico da literatura brasileira bastante famoso pela criação de novas palavras, e perguntada se estava disposta a produzir uma pequena amostra, meu primeiro pensamento foi: “Seria essa tarefa viável?” Acabei respondendo sim, como alguém que se dispõe a atolar-se em prazos de entrega pois se deparou com um desafio irresistível.

Durante três semanas pus de lado o romance em que estava trabalhando e traduzi três páginas. Sim, você entendeu bem: páginas, não capítulos. Em uma profissão em que se considera como bom desempenho a produção de uma média de 2.000 palavras por dia, que tipo de lunático se dispõe a trabalhar de livre e espontânea vontade em um texto cuja complexidade lhe permite produzir apenas 860 palavras ao longo de três semanas? (Claro que levei em conta que estava apenas no aquecimento. Depois de um tempo, talvez, eu entrasse no ritmo e conseguisse dobrar esse número… mas, provavelmente, não. Textos complicados tendem a assim permanecer até o fim.) Então, para ser mais exata, isso equivale a uma página por semana, cinquenta e sete palavras por dia, ou sete palavras por hora, se a sua jornada de trabalho for de oito horas diárias. Mas se você não tem mais como voltar atrás, do que serviria continuar se martirizando com números? Como dizem os brasileiros, se está no inferno, abrace o capeta.

No Brasil, “Grande sertão: veredas” é um cânone literário e seu autor – o romancista e diplomata João Guimarães Rosa (1908-1967) – é considerado um dos maiores escritores do país, ao lado de Machado de Assis e Clarice Lispector. No exterior, entretanto, com exceção de alguns países europeus e de língua espanhola, “Grande sertão: veredas” é pouco conhecido. É considerada uma obra prima da literatura por diversos catedráticos e estudantes de literatura brasileira, mas alguns jamais ouviram falar dele. Apesar de já ter sido traduzido para o inglês uma vez e publicado pela prestigiosa editora de Nova York Alfred A. Knopf em 1963, essa edição caiu no esquecimento.

Então, a pergunta que fica é: por que ninguém o lê se seu trabalho é tão incrível? Para ser justa, o tomo de 494 páginas está esgotado em inglês. Porém, isso levanta a seguinte questão: se é tão bom, por que está esgotado? Existem muitas teorias. Algumas delas baseiam-se no fato de que a primeira tradutora, embora muito respeitada por seu trabalho em espanhol, não era fluente o suficiente em português para lidar com a linguagem incomum. Ou que o tradutor que assumiu a empreitada quando ela renunciou, um excelente lexicógrafo cujo nome está destacado em letras douradas na lombada do meu dicionário favorito, diz-se à boca pequena que, em se tratando de literatura, não tinha lá muita aptidão para captar as nuances da linguagem. (Eu permaneço em cima do muro porque nós, tradutores, acabamos levando a culpa, muitas vezes injustamente, por absolutamente tudo (o que deu errado). E é difícil descobrir os porquês e os motivos das decisões tomadas há meio século, quando as condições de trabalho eram muito diferentes das de agora.)

Pode ser que a atual obscuridade do romance se deva ao acima exposto. Quem sabe não fosse o momento certo, ou talvez o livro não tenha correspondido às expectativas dos leitores de ficção latino-americana na época, ou, ainda, algumas críticas desfavoráveis podem ter suprimido o interesse pelo romance, que acabou por não receber o impulso necessário para realmente decolar. Ou a soma de todos esses fatores. (…)

Original English article available here.

Artigo original em inglês disponível aqui.

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